17 de maio de 2010
Marcelo Luiz de Souza é fisioterapeuta e profissional de educação física com especialização em fisioterapia desportiva. Atende aos árbitros do quadro do Rio de Janeiro, e presta consultorias e palestras a CONAF.
04 / Jun / 2007
Até quando teremos de conviver com a má preparação do árbitro para a partida para qual foi escalado? Até quando vamos assistir o árbitro não dando a real importância para sua preparação dentro do jogo, correndo riscos desnecessários e se expondo a situações onde, caso houvesse uma preparação séria, não aconteceria?Lembramos que as lesões (assim como os erros) ocorrem pela má preparação. A partir de uma situação de esforço dentro da partida sem o árbitro estar bem preparado, situações desconfortáveis como estas são inevitáveis.
O jogador de futebol recebe toda a atenção devida e necessária para o jogo, que inclui: fisioterapeutas, preparadores físicos, nutricionistas, médicos, psicólogos etc. Com isto, objetiva-se proporcionar ao atleta os melhores instrumentos para sua preparação, maximizando sua performance atlética. Os instrumentos que a ciência do desporto coloca a favor do desempenho do atleta passam longe da realidade do árbitro. O árbitro precisa acompanhar esta tendência moderna, que não inclui apenas o seu treino diário, mas elementos de preparação física, técnica e psicológica no vestiário, principalmente nos jogos mais importantes. Mas o ideal mesmo é que isso acontecesse em todos os jogos.
Nesse sentido, o acompanhamento dos árbitros por profissionais qualificados no vestiário vem atender a uma necessidade imposta pela dinâmica do futebol moderno. O nível de exigência física em uma partida de futebol requer preparo físico adequado e contínuo além de um trabalho preparatório antes das partidas, que envolva técnicas específicas voltadas para o bom desempenho do árbitro. Este trabalho, portanto, tem como objetivo:
- Preparar os Árbitros para o jogo, enfatizando os aspectos cardiorespiratório, neuromuscular e psicológico.
- Maximizar a performance e minimizar os riscos de lesões com técnicas apropriadas que ofereçam aos árbitros as condições ideais de preparo para o jogo.
- Atuar no aspecto preventivo e oferecer tratamento adequado para as lesões pré-existentes, acompanhando os árbitros durante toda a partida e atendendo-o em qualquer eventualidade que possa surgir. Este trabalho deverá seguir, ainda, uma rotina que inclui: desenvolvimento antes da partida, no intervalo e a continuação do desenvolvimento do trabalho no pós- jogo.
DESENVOLVIMENTO ANTES DA PARTIDA
- Preparo psicológico: palestras motivacionais para colocar o árbitro atento para a partida, buscando alcançar seus objetivos.
- Massagem desportiva estimulante, pré-aquecendo a musculatura (principalmente dos membros inferiores), aumentando a vasodilatação periférica, favorecendo o aporte sangüíneo e conseqüentemente a chegada de mais nutrientes e oxigênio nos tecidos, evitando rupturas musculares e cãibras. Manobras mais utilizadas: deslizamentos, fricção, amassamento, percussão, vibração e mobilização articular e muscular.
- Aquecimento, usando cones de balizamento. Realiza-se trabalho global que envolve sistema cardiorespiratório com trotes, deslocamentos e alongamentos. Trabalho funcional e proprioceptivo.
- Em seguida, alongamento leve, tendo como objetivo aumentar a resistência muscular, diminuindo as tensões nos tecidos, aumentando a amplitude articular.
- Aporte nutricional adequado que inclui: frutas, repositores energéticos (maltodextrina), hidroeletrolítico (sódio e potássio) e suplementação nutricional (magnésio).
DESENVOLVIMENTO NO INTERVALO DA PARTIDA
Com o objetivo de relaxar a musculatura, mas mantendo o nível de aquecimento, são utilizados bamboleios, manobras de descontração diferencial, mobilização articular e muscular e alongamentos. Além de serem usados repositores para o equilíbrio hidroeletrolítico (sódio e potássio) e suplementação nutricional, principalmente, com aporte de magnésio para evitar cãibras.
DESENVOLVIMENTO AO FINAL DA PARTIDA
Objetivando restaurar as propriedades musculares perdidas durante a partida, utilizam-se os alongamentos passivos, as massagens com manobras de profundidade média, bamboleios musculares e movimentos articulares. Usamos procedimentos de drenagem linfática e massagem relaxante com o propósito de extrair os metabólitos oriundos da prática física intensa.
O ideal seria que a Confederação e as Federações investissem neste trabalho com profissionais no vestiário para preparação do árbitro (Fisioterapeuta e Profissional de Educação Física), o que, sem dúvida, traria retorno para melhor rendimento dentro do campo. Tal qual se investe com os observadores do jogo, que trouxeram muitas contribuições para o desenvolvimento da arbitragem. A presença do Fisioterapeuta e do Profissional de Educação Física, certamente, estaria tornando mais efetiva a atuação do árbitro na partida. Mas é bom lembrar, que a prerrogativa para o sucesso deste trabalho é que o árbitro esteja bem preparado fisicamente para a mesma, ou seja, que os seus treinos diários sejam efetivos. De nada adianta um trabalho como este se um árbitro vai mal preparado para o jogo, não tendo uma rotina de treinos específicos e adequados à exigência do futebol moderno.
Acabou o tempo em que o árbitro ia a campo apenas para apitar, sem fazer a devida preparação para o jogo, com treinamento adequado e preparação no vestiário. O árbitro deve acreditar que de fato isto é importante, faz o diferencial na sua preparação e, conseqüentemente, diminui a possibilidade de erro. Esta reflexão é necessária e urgente neste momento. É da mesma forma importante, agregar valores ao seu trabalho, construir procedimentos estáveis e gerar dinâmica diferenciada à sua preparação.
Importante salientar que este trabalho é pioneiro no Estado do Rio de Janeiro, onde sob minha supervisão e acompanhado de outro profissional de Educação Física, Ivanir Soares, realizamos este trabalho de acompanhamento no vestiário desde 2004. E podemos adiantar que os resultados obtidos são os melhores possíveis. Índice de lesões baixíssimo, com a vantagem de iniciarmos tratamento no pós-jogo. Quando o árbitro apresentava alguma lesão, o tratamento era iniciado ainda no vestiário, colocando-o em condições de jogo. Percebeu-se que o índice de erros havia diminuído em função de se ter aumentado nível de atenção com preparo psicológico e aquecimento específico. Além deste trabalho, também é mantido núcleo de treinamento físico, onde são treinadas as valências físicas necessárias para o bom preparo físico do árbitro. Os árbitros do quadro do Rio de janeiro que se preocupam com uma preparação diferenciada e específica, nos têm procurado para este trabalho. E percebemos que nos testes físicos preliminares aplicados aos árbitros que participam deste programa, o índice é de 100% de aprovação.
Até a próxima!!!
